Sobre criação de hábitos e mudança de vida – minha experiência pessoal

Este texto eu escrevi para uma palestra. Fui convidada pela minha treinadora de corrida para falar em um evento sobre as minha experiência com a corrida. Como tem tudo a ver com hábitos, qualidade de vida, felicidade e outras coisas que são a essência do projeto, resolvi transcrevê-lo aqui!

Meu nome é Christiane, tenho 44 anos e dois filhos lindos.

Na minha infância, fiz os esportes obrigatórios. Na natação, fiquei famosa, segundo minha mãe, que conta que meu choro de revolta ao entrar na piscina se ouvia a um quarteirão de distancia.

Frequentava o vôlei por obrigação, mas gostava mesmo era de ficar no banco, assistindo.

Nas olimpíadas da escola ganhei medalha de ouro. Em damas.

Um pouco mais tarde, pedia atestado para não correr nas aulas de Educação Física.

Depois de adulta, meu esporte – muito esporádico – era pagar academia. Por um curto tempo também corri atrás de bolinhas de tênis caídas. Até que, quando chegaram as crianças, desisti por completo.

Não sou competitiva. O que me desafia é ME superar, e eu sempre busquei isso em atividades intelectuais. Nunca me apaixonei por nenhum esporte, nem como espectadora. O único beneficio que eu vislumbrava com o esporte era a manutenção da forma física. Mas, como os resultados não eram rápidos, nem isso me motivava.

Passou o tempo, passaram os anos, e o corpo e a mente começaram a dar os sinais de desgaste. Stress, insônia, dores musculares. Os quilos das gestações que insistiam em não sumir, e mais alguns que se seguiram. Um tumor que me pegou de surpresa e me fez repensar muitas coisas. E aí, eu precisei levar corpo e mente mais a sério.

Comecei a meditar, fiz yoga, mas não encontrava tempo (ou prioridade) para o corpo. Dirigia 70 quilômetros no trajeto para o trabalho, o horário de almoço era corrido, e, ao sair, tinha todas as outras obrigações de mãe e dona de casa, e a necessidade e vontade de estar com as crianças.

Por indicação da avaliadora física do check-up, comecei a subir escadas. No horário de almoço subia 6, depois 9, 15, e, por fim, 18 andares todos os dias. Os músculos das pernas responderam, a culpa pelo sedentarismo diminuiu, mas ainda sentia que faltava algo.

Nessa busca por algo que se encaixasse na minha rotina, decidi caminhar, mas com o objetivo de correr. Afinal, são atividades que demandam só um par de tênis e um pouco de tempo. E, com o numero crescente de amigos apaixonados pela corrida, a curiosidade por entender essa paixão também foi crescendo. Então comecei.

No principio eu caminhava 3, 3,5, 4 km. Me lembro da primeira caminhada de 5km. De chegar em casa e me jogar na primeira cadeira que vi, ofegante, vermelha e quente, mas me sentindo vitoriosa.

Caminhava aos sábados e domingos. Aos poucos fui correndo pequenos trechos, e me sentindo poderosa com essas pequenas evoluções.

Um dia, uma amiga que já corria, soube que eu estava tentando correr, e me convenceu a me inscrever em uma corrida de 5km. Topei, mas entrei em pânico. Não corria nem 1km contínuo. Mas fui treinando, determinada.

Chegou o dia e largamos juntas. Passados uns poucos metros, eu disse a ela: “vai lá no seu ritmo, que eu vou devagar”.

Mas ela não foi. Fez a prova toda do meu lado. “Eu vim com você e nós vamos juntas”, ela disse. E assim fomos. E assim eu consegui correr meus primeiros 5km contínuos, e terminei a prova feliz, me sentindo poderosa, e comovida com a generosidade dela.

Esse mesmo anjo me levou para a minha treinadora. Confesso que nunca tinha entendido o conceito de professora de corrida – correr, afinal, era uma extensão natural de andar, algo que aprendi, sozinha, no primeiro ano de vida – não?

De lá para cá, eu descobri um mundo de coisas novas. Que às vezes é melhor ir devagar do que encarar uma lesão e ter que parar. Que existe o tênis que ajuda e o que te expõe às tais lesões. Que existe postura, respiração e muito mais a ajustar para correr melhor e mais seguro.

Mas a coisa mais importante que eu descobri é que a corrida é um esporte de equipe. É um mundo de gente generosa, de gente alegre, de gente saudável. Que nessas poucas horas por semana a gente faz irmãos.

Recentemente eu sofri um acidente e fiquei sem carro. Avisei a turma que teria que treinar sozinha até conseguir outro. Mas minha nova família não permitiu. Uma dava uma volta imensa para me buscar e outra me levava de volta. Não deixei de correr com eles nenhuma vez por conta da falta de carro.

E é preciso dizer que essas minhas amigas e amigos são corredores experientes. São maratonistas, meio-maratonistas, triatletas. Nunca consigo correr ao lado deles por mais que alguns minutos. Mas nunca acabo um treino sozinha. Eles me incentivam, me zoam, me provocam e me buscam quando fico para trás. Nunca senti que eu era um peso, alguém que “empacava” o treino. Pelo contrário, eles vibram comigo e com minhas pequenas vitórias como se fossem deles.

Hoje eu estou completando um ano de treinos regulares com a equipe. Certamente não sairia da cama três vezes por semana para correr, se não fosse por eles.

E o que mudou na minha vida?

Tantas coisas!

Em um primeiro momento, eu ganhei músculos. Quando aliei à corrida uma dieta, perdi vários quilos. Ganhei disposição e energia. Ganhei essa família que me diverte, me inspira e me apoia. Ganhei exemplos a seguir. Meus exames estão ótimos. Ganhei parabéns do medico que conduziu meu exame ergométrico.

Mas, acima de tudo, ganhei a autoconfiança de que tenho a capacidade de me reinventar. De decidir quem eu quero ser. E isso, só isso, já teria sido um ganho muito maior do que eu poderia sonhar.

Hoje eu tenho 44 anos recém completados. E sei que posso sonhar e fazer de mim uma pessoa nova, melhor, ou somente diferente ao chegar aos 45. Porque hoje eu sou uma pessoa muito, mas muito melhor do que eu fui ao completar 43!