Quais são as suas forças?

 

Feche os olhos e imagine a seguinte situação. Você acabou de receber o boletim de seu filho. Tente se imaginar lendo o boletim. O que capta a sua atenção?

Chegou o dia de receber feedback na empresa. Quais os pontos que você imagina que serão abordados?

A maioria das pessoas, ao ver o boletim terá buscado se haviam notas baixas. As avaliações nas empresas também tendem a evidenciar e buscar resolver os pontos fracos. Nossa cultura tem essa tendência de olhar para os gaps, para tentar resolvê-los.

A Cultura da Média

Nossa cultura olha para a média. Nosso sistema educacional foca na média. De acordo com Tim Rath, pesquisador do Gallup, mais de ¾ dos pais nos Estados Unidos declaram que as notas mais baixas dos estudantes são o foco de seus esforços. Os pontos de excelência são recebidos como aspectos que não demandam atenção, já que não se configuram como problema.

A mesma coisa acontece nas organizações. A maioria dos programas de treinamento busca “nivelar competências”, tentando levar os funcionários a serem um pouco melhores naquilo que não são bons.

Mas o que aconteceria se esse foco se invertesse?

Uma nova visão

Foi com base de uma avaliação nessa linha que Martin Seligman, ao assumir a  presidência da American Psychological Association (APA), em 1998, assumiu como meta da sua gestão, buscar um novo olhar para a psicologia. Em seu discurso de posse, ele afirmou:

“A coisa mais importante que eu aprendi, foi que a psicologia está incompleta […]. Nós desenvolvemos bem a parte relativa às doenças mentais. […] O outro lado nunca foi elaborado, o lado da força, o lado daquilo em que somos bons”

Este momento é considerado a fundação da psicologia positiva, que se empenha em trabalhar o florescimento das pessoas. E a base da psicologia positiva é a identificação e desenvolvimento das forças pessoais.

O que são forças pessoais?

A gente se acostumou a ouvir e repetir que “podemos ser e fazer qualquer coisa, desde que nos esforcemos bastante”. Embora isso possa ser verdade na maioria das situações, talvez não seja o melhor caminho para o sucesso.

Todo mundo é naturalmente melhor em algumas coisas do que outras. Desde que as crianças são pequenas, é possível observar alguns traços e características que as acompanharão por toda a vida. Uns são mais falantes, outros são mais detalhistas. Uns gostam mais de esportes, outros gostam de tarefas manuais. Algumas crianças parecem aprender matemática intuitivamente, enquanto outras parecem incapazes de entendê-la.

O mesmo se dá com adultos. Uns de nós “nasceram para serem vendedores”. Outros são excelentes em fazer contas e estatísticas. Outros são organizados e detalhistas. Outros não conseguem ficar parados.

Esses talentos inatos são as forças pessoais. Aquilo em que a pessoa naturalmente se destaca. Os trabalhos da psicologia positiva mostram que as pessoas que descobrem e usam as suas forças pessoais tendem a ser mais felizes e bem sucedidas.

Seligman, junto com Christopher Peterson, descreveram 24 forças, em seu VIA – Values in Action, um instrumento para identificar as principais forças dos indivíduos.

Outro instrumento importante é o Strengthsfinder do Instituto Gallup, desenvolvido por Don Clifton, e que identifica as 5 principais forças dos indivíduos, dentre 34.

Da média para o topo

Segundo Clifton, é falsa a crença de que as forças são o oposto das fraquezas, e de que a doença é o oposto de saúde. E que somos levados a pensar que, se identificarmos nossas fraquezas, as transformaremos em forças. Ele afirma:

 “Estudando lares desfeitos, não nos leva a informação sobre como construir famílias sólidas. Estudando porque jovens usam drogas não nos levará a entender as condições sob as quais algumas crianças dizem não às drogas. Estudando porque algumas crianças são ruins em matemática, não nos explicará porque outras serão excelentes.”

 

Ao contrário, para levar as pessoas ao seu melhor, é importante focar e incentivar o uso das suas principais forças. Segundo estudos do Gallup, empresas que incentivam esse uso apresentaram 72% a menos de turnover e lucros 29% maiores. Pessoas que tem a oportunidade de focar em suas forças no trabalho são seis vezes mais propensas a estarem mais engajadas em seus trabalhos e mais de 3 vezes mais propensas a declarar terem uma excelente qualidade geral de vida.

Voltando às crianças, o mesmo se aplica. Nosso sistema educacional trabalha para que as crianças sejam boas – ou melhor dizendo, acima da média – em tudo. Assim, quando uma criança que ama a natação tira nota vermelha em matemática, seus pais ameaçam tirá-la da natação se ela não melhorar aquela nota. Este tipo de “incentivo” pode, no longo prazo, estar encerrando a carreira de um futuro Michael Phelps, que pode vir a se tornar um infeliz e medíocre trabalhador em alguma grande empresa.

Em seu livro Strengths Based Parenting, Mary Reckmeyer, filha de Clifton, conta o caso de Steve. Leah, sua mãe, se preocupava com o filho, que tinha dificuldade em acabar suas tarefas, era disléxico e ia mal na escola. Mas, em vez de força-lo a ir bem e a superar suas fraquezas, Leah incentivava seus interesses.

Aos 11 anos, Steve demonstrou interesse em ganhar um prêmio de fotografia, e Leah levou ele e as três irmãs para uma viagem para que ele pudesse fazer suas fotos. Nos anos seguintes, seu interesse se manteve, bem como o apoio da mãe, apesar de suas notas continuarem baixas. Esse apoio fez com que ele não se sentisse envergonhado ou culpado de suas fraquezas. Anos depois Steve se tornaria mundialmente conhecido por inúmeros filmes seus, como ET ou Indiana Jones.

Claro que nem toda criança encorajada a seguir suas paixões se torna um Steven Spielberg, conclui Reckmeyer. Mas este tipo de suporte pode fazer a diferença no futuro de seu filho, tanto na identificação de suas habilidades, como na construção de sua auto-confiança.

 

identificar suas forças

Ambos os testes citados estão disponíveis online. O VIA é gratuito, dependendo somente de cadastro. O StrengthsFinder está vinculado à compra de um dos livros do Gallup, que pode ser feito no próprio site do instituto ou em qualquer livraria. Com a compra do livro você recebe um código para uma única realização do teste. Os endereços são:

 

VIA: http://www.viacharacter.org/

Gallup: https://www.gallupstrengthscenter.com/