Meu retiro de meditação Vipassana

 

Desde que eu comecei a meditar, fazem já mais de 3 anos, eu sonhava em fazer um retiro de meditação. Toda literatura americana sobre meditação menciona um ou mais retiros, e eu queria experimentar o que seria viver alguns dias focada em meditar.

Mas, naqueles primeiros anos, isso era impossível. Na loucura da vida de assalariada, com dois filhos pequenos, meus dias de férias eram dedicados a viajar com eles ou a resolver pendências. Ainda assim, eu ficava namorando os convites de retiros, e sonhando em como seria vier essa experiência.

Quando eu parei de trabalhar, essa passou a ser uma prioridade para este ano. Comecei a pesquisar, mas um pouco reticente com o que encontrava. Resolvi então pedir indicação a uma amiga que já havia feito mais de um retiro, e em quem confio muito.

Ela me indicou dois nomes, um dos quais era um que ela já havia feito, e que, coincidentemente, ficava perto da minha casa. E assim, decidi que seria aquele, sem nem sequer buscar mais detalhes sobre como seria.

Primeira surpresa: foi extremamente difícil conseguir uma vaga. Não podia imaginar que haveria tanta demanda para um retiro de meditação de 10 dias. Só consegui me inscrever para uma turma quando pus a data em que as inscrições para ela seriam abertas na agenda e acessei o site às 7:30 da manhã. Era começo de fevereiro, e meu retiro seria somente em maio.

O retiro é totalmente gratuito – são aceitas doações, somente dos ex-alunos, e somente após o curso. No processo de inscrição é enviado um Código de Disciplina e uma série de informações sobre como funciona o retiro. Eu, deliberadamente optei por não ler tudo em detalhes. Já imaginava que o retiro seria pesado, e não queria me deixar desistir.

Entre fevereiro e maio, aos poucos fui comentando com amigos sobre o retiro, e, a cada questionamento, ia me informando um pouco mais. Aos poucos fui me inteirando dos horários e das restrições, que eram muitas. Nesta fase descobri que não poderia falar, nem levar livros ou cadernos, nem celular. Ficaria totalmente isolada do resto do mundo, acessível somente pela família em caso de emergência. Descobri que a meditação começava às 4:30 da manhã e, fundamentalmente, tomava o dia todo. Descobri que a alimentação era vegetariana. E pouco mais.

Foi chegando o dia, e, apesar de um certo receio de como seria essa rotina austera, estava ansiosa para ir. Me despedi da família, e fui, eu, minha mala, e um rapaz a quem dei carona. Ir conversando com alguém muito diferente de mim, com história de vida muito diferente, e igualmente ansioso pela experiência, me ajudou a me sentir já um pouco dentro da experiência.

A Meditação Vipassana – o que é, como é

A Meditação Vipassana, como eu vim a descobrir ao longo do retiro, é uma técnica de meditação descoberta e ensinada pelo Buda, há 2500 anos, e que foi difundida pelo mundo ocidental a partir de um professor birmanês, que se estabeleceu na Índia, e de lá difundiu a técnica. Existe um cuidado profundo em se mantera técnica estritamente dentro das tradições originais. Tudo segue, assim, um formato bastante rígido, exatamente igual em todas as partes do mundo.

Os homens e as mulheres ficam em espaços completamente isolados, sem sequer ter contato visual. O único lugar em que se encontram é na grande sala de meditação – ainda assim, separados por um corredor de uns dois metros de largura.

Não é permitido nenhum contato físico e nenhum tipo de comunicação. As instruções são áudios gravados pelo próprio Goenka, em inglês, e traduzidas a seguir. Os professores presentes praticamente só respondem os questionamentos, que são feitos em encontros individuais de no máximo 5 minutos, em dois momentos específicos do dia.

A agenda diária é fixa e intensa. O despertar é as 4:00. A primeira sessão de meditação começa às 4:30, e, a partir daí, o dia é todo ocupado por meditações com durações entre uma e duas horas, com breves intervalos. Às 6:30 é servido o café da manhã, seguido de um descanso até as 8:00. Das 11 às 13, almoço e mais descanso. Às 17 são servidas frutas (duas), leite e chá para os alunos novos. Os antigos somente podem tomar os líquidos. A partir daí, jejum até o café da manhã. Às 19 é apresentada uma palestra também gravada pelo Goenka, seguida de instruções para o próximo dia, e um breve período de meditação, até as 21.

Meu retiro

Ao chegar lá, fizemos a inscrição, e tivemos que entregar celular, chaves do carro, remédios e qualquer tipo de literatura ou comida. Tudo é muito organizado e eficiente. O dormitório e cama já estão definidos, assim como a posição na sala de meditação.

O silêncio só começa após o lanche da tarde. Nestas primeiras horas, tivemos a oportunidade de conversar um pouco com as outras pessoas. Algumas já haviam feito o retiro duas, dez e até dezoito vezes, mas a maioria estava ansiosa, na expectativa de como seria a experiência. Havia desde pessoas bem jovens até senhoras um pouco mais idosas. Todos muito amistosos, todos querendo saber das motivações e conhecimento prévio dos demais. A mim, me perguntavam como seria ficar todos esses dias sem notícia das crianças.

O lanche deu início à minha experiência de testar meus limites e de sair da zona de conforto. Chá, pão e sopa. Como eu não gosto de sopa, tomei rapidamente meu bowl, e apreciei o delicioso pão.

Logo em seguida, começou o silêncio. Começava uma noite fresca de outono. Todas aquelas pessoas ali agasalhadas e o silêncio só quebrado pelo barulho do rio e dos grilos e outros bichos da mata ali próxima davam um ar solene e místico para aquele momento. Fomos direcionados para nossos lugares na sala da meditação, pouco iluminada, e ouvimos a palestra de abertura e as instruções para o primeiro dia de meditação. Não parecia difícil. Não parecia muito diferente do que eu vinha fazendo nos últimos anos. Fui dormir tranquila e em paz.

Dali pra frente, aos poucos, a sensação de novidade e do desconhecido foi dando lugar a uma rotina que, se por si só já é bastante monótona, parece ainda mais rígida pela falta de distrações. O tempo passa bastante devagar quando não se tem quase nenhum tipo de distração, e a sensação que eu tinha depois de dois ou três dias era de estar vivendo aquela rotina há semanas.

Quanto à meditação, a grande surpresa é que não era difícil meditar todo aquele tempo. O que realmente era quase insuportável era permanecer sentada no chão doze horas por dia. E a dor diferente do que eu esperava não era nas costas. A dor maior era nas pernas, uma dor que eu desconhecia. Eu tentava mudar as posições das almofadas, me ajeitar, mas, na maior parte das vezes, depois de uns 40 minutos sentada eu já nem mais conseguia me concentrar com toda aquela dor.

Ainda assim, todo aquele período de meditação tem um efeito muito além do que eu poderia esperar. Meu padrão de sono mudou completamente, eu dormia pouco e acordava muito cedo. Em quase todos os dias já estava acordada a mais de uma hora quando tocou o sino às 4 da madrugada. Como sou naturalmente insone, em princípio imaginei se tratar de uma de minhas crises em função do colchão estranho, ou de estar dividindo o quarto. Mas eu não acordava cansada. Aquele pouco sono era suficiente.

Além disso, tive sonhos vívidos como nunca antes. Acordava e continuava me lembrando com detalhes horas depois. Ao fim do retiro, quase todo mundo relatava experiências semelhantes.

Não falar não foi difícil na maior parte do tempo. Eu estava bem comigo mesma. Estava feliz em ficar no meu mundo interior e observar as sensações novas que estava vivendo. Super alerta e focada, e sem distrações. Nestes dez dias, registrei detalhes da natureza do pequeno espaço que tínhamos para caminhar nos horários de descanso com detalhes. Acompanhei flores abrindo e morrendo. Abelhas tecendo teias e lagartas caminhando. Ouvia com atenção o barulho do rio e sentia o vento no rosto.

O silêncio era sim perturbador quando havia a necessidade de comunicar com alguém – em geral no dormitório, onde dividíamos tarefas de limpeza e o uso do mesmo banheiro em horários parecidos. Nessas horas era desagradável e mesmo um pouco perturbador não poder falar com as outras.

A comida não era particularmente gostosa. A falta do jantar incomodou mais pelo medo de sentir fome do que pela fome propriamente dita. Essa experiência de frugalidade, como foi explicado em uma das palestras noturnas, era para que vivêssemos por alguns dias como os monges budistas vivem. Sem se preocupar com a subsistência, mas com a humildade de quem vive da caridade alheia.

Depois do sexto dia, tudo foi ficando mais difícil. O cansaço foi se acumulando, e eu comecei a temer a dor antes mesmo que ela começasse. A partir do quarto dia, em três sessões de uma hora, não se pode sair da sala e é solicitado que tentemos não nos mover durante todo o período. Aquelas eram as horas mais desesperadoras nestes últimos dias. Comecei a questionar minha capacidade de seguir a técnica e meu sucesso no retiro. Comecei a fazer contagem regressiva para ir embora e a me prometer nunca mais fazer algo semelhante.

O começo do fim

O décimo dia é uma espécie de preparo para sair do retiro. O silêncio é quebrado no fim da manhã, a partir de quando são feitas poucas horas de meditação. A princípio achei que sairia conversando desesperadamente. Mas não. Não tive vontade de ficar fofocando. Não tive vontade de me juntar aos vários grupinhos e ficar trocando experiências. Fiquei quase que todo o tempo com uma amiga que fiz no período de silêncio.

Sim, fiz uma amiga no silêncio, e essa foi uma das experiências mais bonitas do retiro. Uma das minhas companheiras de quarto tinha um ritmo muito parecido com o meu. A gente funcionava no mesmo ritmo, escolhia horários parecidos para comer, tomar banho, fazer a faxina. Funcionávamos em sintonia.

Por alguns momentos tive medo de estar perturbando o silêncio dela, pois nossa interação silenciosa parecia falar alto. Desde o começo, chegávamos juntas ao refeitório e elegemos cada uma um canto para se sentar todos os dias. Até que um dia ela começou a se sentar ao meu lado, e perdi aquele medo de a estar incomodando.

Foi ainda mais interessante, neste décimo dia, conversarmos e ver que somos muito diferentes nos aspectos que normalmente usamos para avaliar o outro. Possivelmente em outras circunstâncias nunca tivéssemos nos aproximado, mas, no silêncio, algo muito mais profundo surgiu.

O assunto predominante nas conversas deste dia era, claro, a experiência de cada um. Todos relatavam experiências semelhantes. O padrão de sono alterado, o medo da fome, a contagem regressiva e as dores. As alunas antigas eram unânimes em dizer que a convicção de nunca mais voltar é semelhante às dores do parto: depois de um tempo se esquece as dificuldades e ficam as boas lembranças.

O balanço final

Já naquele décimo dia, o saldo positivo era evidente. A sensação de paz, de mais clareza e foco são indescritíveis. Voltei para casa dirigindo como se estivesse flutuando, e essa sensação permaneceu, muito intensa pelos primeiros dias, e depois, aos poucos foi diminuindo, com a perda da regularidade da meditação.

Esperei dois meses para escrever este relato para ter um distanciamento e poder avaliar melhor. De fato, hoje sinto falta, e gostaria de voltar, idealmente com algum preparo físico prévio, para tentar reduzir as dores. Não voltarei tão cedo em função da logística da família, com crianças ainda pequenas. Mas, sem dúvida, os pontos positivos hoje falam muito mais alto

Recomendo a experiência para quem quiser ter uma amostra bem contundente dos benefícios da meditação. Pelo autoconhecimento que o silêncio permite. Para quem quiser se testar e perceber que somos capazes de viver com muito menos conforto e distrações, sobretudo com a mente em paz. Caso a experiência pareca dura demais, excêntrica demais, recomendo alguma alternativa de retiro de dois, três dias. E sempre, claro, a meditação diária.