Aprendendo a amar o trânsito

 

Abends in Berlin

Aprender a amar o trânsito pode ser uma lição de aprender a viver.

Qualquer um que more nas grandes cidades deve estar achando que isto é um título marketeiro, mas não. Trata-se de uma conclusão a que eu cheguei a partir de três reflexões diferentes.

Um dos mais importantes conceitos que aprendi sobre a felicidade é que ela não pode ser um fim a ser alcançado. Esta idéia ficou tão importante para mim que a adotei como uma espécie de mantra. Quando criei uma página no facebook para discutir a felicidade usei uma frase como imagem de capa.

“Happiness is a way of travel, not a destination”

A segunda reflexão veio de um texto do Shawn Achor na HBR. O texto mostrava que ouvir notícias negativas no trajeto ao trabalho reduz a produtividade das pessoas.

Desde então, eu pouco ouço rádio no carro. Opto por ouvir podcasts que me interessam, ou músicas também selecionadas. Às vezes faço exercícios de relaxamento e respiração. Ou fico em silêncio e tento observar a paisagem ao redor, as pessoas nos outros carros. E, desde então, minhas duas horas diárias de trânsito ficaram muito mais leves.

A terceira reflexão veio de um desses podcasts no carro. Nele, o neurocientista Pedro Calabrez falava sobre a experiência das pessoas no trânsito. Que o trânsito é ruim, por ser visto como meio, como algo sem valor em si. É uma situação considerada provisória da qual não se aproveita nada. Onde sempre se está na esperança de chegar em outro lugar.

Mas ele expandiu a noção para uma visão metafórica do trânsito. Segundo ele, tem gente que vive no trânsito o tempo inteiro. Estão em seus trabalhos esperando chegar em algo diferente. Estão solteiras esperando casar. E quando casam esperam voltar a serem livres. Nunca estão satisfeitas, porque nunca estão presentes no que estão vivendo.

Esta linda metáfora traduz o conceito tão em moda de mindfulness. De viver conscientemente o momento presente. Mas eu guardo esta idéia para uma outra reflexão.

Juntando esses três conceitos é que eu lanço minha provocação e meu desafio pessoal:

Precisamos tentar resignificar o trânsito.

Não só o literal, mas o metafórico.

Em que momentos estamos em algum lugar sem de fato estar presente? Como repensar estes momentos, buscando obter sentido e felicidade naquele contexto? Ou, se não for possível, será que vale a pena estar ali? Quais as alternativas concretas para não mais estar?